Araripe e Trindade (PE): Terra do gesso entra na era do gás natural (www.gessoararipina.com.br)

Araripe e Trindade (PE): Terra do gesso entra na era do gás natural (www.gessoararipina.com.br)

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Como todo polo industrial tipicamente brasileiro, o “Chapadão do Araripe” é um vai e vem frenético de caminhões de todas as partes do país. Carregam basicamente madeira, coque de petróleo e gesso nas mais variadas formas. Também não é raro levarem na caçamba grupos de homens que se assemelham a fantasmas, brancos dos pés à cabeça em razão do trabalho diário com o gesso.

Formado pelos municípios de Araripina, Trindade, Ipubi, Bodocó e Ouricuri, o polo gesseiro do Araripe, no extremo oeste pernambucano, fornece nada menos que 95% do gesso consumido no Brasil, algo hoje em torno de 5 milhões de toneladas por ano. As reservas de gipsita, rocha mineral que origina o gesso, são estimadas em 1,2 bilhão de toneladas, quinto maior volume do mundo, depois de Irã, China, Canadá e México.

O dinamismo da construção civil nacional acelera a demanda e alimenta os sonhos de grandeza da região, que sofre com gargalos importantes de infraestrutura, sobretudo em energia e transportes. Praticamente todas as fábricas do polo abastecem com lenha e coque os fornos onde a gipsita é convertida no gesso em pó que conhecemos.

Pleito antigo do setor, formado majoritariamente por pequenas e médias empresas, o gás natural começou a chegar ao Araripe há pouco mais de um mês, provocando grande expectativa de um salto de qualidade e de volume na produção local. Mais limpo e eficiente, o combustível poderá oferecer a segurança energética necessária para que o setor atenda melhor uma demanda que em 2010 avançou 30% sobre o ano anterior.

“Resolvendo a questão energética e logística, o crescimento é inevitável. O momento é de grande otimismo”, afirma Josias Inojosa Filho, vice-presidente do Sindicato da Indústria do Gesso (Sindusgesso). Além da expansão do consumo per capita no Brasil, ainda pequeno se comparado a países como Argentina e Chile, o dirigente quer ver o gesso nacional forte no mercado externo. Do R$ 1,6 bilhão que o setor deve faturar neste ano, menos de 1% virá de exportações.

O primeiro empresário contemplado com o gás natural foi o vice-prefeito de Araripina, Alexandre Arraes (PSB). Ele é o dono da New Gipso, fábrica de médio porte localizada no distrito industrial do município. O fornecimento, porém, ocorreu apenas como projeto piloto do governo estadual, que está elaborando um modelo de negócio, baseado em isenções fiscais, para tornar economicamente viável a entrega do gás por caminhões enquanto um gasoduto não é construído, o que não tem prazo para acontecer.

Nas primeiras experiências, o gás chegou à fábrica 30% mais barato do que o equivalente em madeira, segundo informou Aldo Guedes, presidente da Companhia Pernambucana de Gás (Copergás), empresa controlada pelo governo de Pernambuco em sociedade com Petrobras e Mitsui. A meta é operacionalizar pelo menos 30 mil metros cúbicos por dia até o fim deste ano. A demanda, porém, é bem superior. Está hoje na casa de 300 mil metros cúbicos diários e só tende a crescer, dado que muitas novas empresas estão chegando, atraídas pelo horizonte promissor.

Atualmente, 15 fábricas estão sendo erguidas na região, entre elas a Padrão Gypsum, do pernambucano Geraldo Antonio do Nascimento. Apesar de animado com a possibilidade de chegada do gás natural, ele se mantém cauteloso, até porque está desembolsando quase R$ 2,2 milhões na empreitada. “Vou começar usando a madeira, legalizada obviamente, mas pretendo investir futuramente em um forno a gás. Se vier mesmo (o gás), é uma mão na roda”, avalia.

Por ser limpo, o gás natural pode ser injetado e queimado dentro do forno, acelerando o processo de calcinação da gipsita, que nada mais é do que a extração do excedente de água. Usando lenha, coque ou óleo combustível, altamente poluidores, a queima é feita fora do forno, para evitar a contaminação do gesso, o que torna o processo menos eficiente. “Com gás eu fiz quatro toneladas em uma hora. Com lenha é o dobro do tempo”, calcula o gerente de produção da New Gipso, Expedito Batista da Silva.

A avaliação é semelhante na Ingenor, uma das maiores fabricantes da região, onde são queimadas mais de 450 toneladas de coque por mês. “Além da questão ambiental, a vantagem está no custo final do produto, porque o aproveitamento calórico do gás é de quase 100%, enquanto que a transferência de calor que ocorre com o coque gera perdas importantes”, explicou o responsável pela unidade, Wilton Pereira.

Por todo o polo se vê imensas montanhas de lenha, material que ainda responde por 90% da fonte energética das fábricas. Com o endurecimento da fiscalização ambiental sobre o corte da madeira nativa da caatinga, os fabricantes têm que trazer o combustível do Piauí e do Ceará, onde adquirem a lenha resultante da poda de cajueiros e goiabeiras. Apesar disso, ainda é corriqueira a utilização de madeira ilegal, segundo relatos dos empresários locais.

Alheio à polêmica, o retraído operário Roberto Januário, de 40 anos, passa o dia alimentando calmamente o apetite voraz dos fornos a lenha. Após 12 anos vivendo em São Paulo, ele decidiu voltar a sua terra, informado que foi sobre o surgimento de oportunidades de trabalho. Diante do risco de o gás natural tornar desnecessária a sua função, ele não perde a serenidade: “Aí tem que arrumar outra coisa pra fazer.”

Outra demanda antiga, o transporte do gesso também vislumbra dias melhores. Isso porque uma das principais atribuições da ferrovia Transnordestina será atender o polo do Araripe, o que deve gerar uma redução expressiva nos custos de frete. Levar o gesso a preços competitivos até o porto de Suape (PE) ou de Pecém (CE) pode representar uma nova chance para o setor competir no mercado externo, além de abastecer com mais eficiência a demanda nacional, que não se resume à construção civil. Agricultura, indústria cerâmica e ortopedia também são clientes relevantes.

Enquanto gasoduto e trilhos seguem engessados, o caminhoneiro gaúcho Osni Rodrigues se prepara para mais uma jornada de 2,8 mil quilômetros entre Araripina e Porto Alegre. Na caçamba, 31 toneladas de placas de gesso que vão adornar casas, apartamentos e escritórios da capital gaúcha. Se realizados os desejos do empresariado gesseiro, os caminhões devem perder importância na paisagem do Chapadão do Araripe. Os fantasmas, pelo menos por enquanto, estão garantidos. (TELEVENDAS WHATSAPP – 041.9.9234.4646)

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